sábado, 8 de março de 2008

SIMPLESMENTE MULHER ...

No Dia Internacional
da Mulher


Até Deus, logo que te viu,
no breve enlevo do paraíso,
te amaldiçoou com o pecado original...
E o Homem, através dos tempos,
impondo o poder que esse Deus lhe deu
nunca te perdoou o encantamento
da bíblica árvore em que se perdeu...

Em nome de Jeová e Alá,
Moisés, Cristo e Maomé,
cristãos, muçulmanos e judeus,
erguendo aos céus os sagrados livros,
impuserem o silêncio do teu corpo,
riscaram a tua existência, a tua voz...
E a tua vida, separada da tua pujança,
foi apenas uma sombra esquecida...
Benzeram-te com a peçonha
da vergonha
de teres nascido mulher...
E os homens ungiram a tua vagina
para aquecerem a sua volúpia,
dilataram o teu vigoroso útero,
que pariu a humanidade inteira,
esquecendo-se sem remorsos
da tua dimensão verdadeira...

Eras apenas mãe, esposa ou irmã,
na simples serventia de parideira, vivendo
ao ritmo das mamadas dos teus filhos...
E quando o vento mudava de feição
eras serpente, bruxa e feiticeira,
desgraçada e perdida rameira...
Mulher sem condição...

E tu eras simplesmente Mulher
(e não um objecto qualquer,
escondido na burka, no hábito ou no véu)...
Nem mesmo eras aquela outra Maria
que as asas de um arcanjo cobriu
E que, mesmo chamada virgem, pariu...

Alexandre de Castro
Lisboa, Março de 2005
Registado: IGAC/MC- 5467/2004

quinta-feira, 6 de março de 2008

AS MINHAS DÚVIDAS

"É preciso ter dúvidas.
Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos."
(Welles, Orson)

segunda-feira, 3 de março de 2008

LIBERALISMO


Segundo Maria do Carmo Tavares "tem diminuído o descanso dos trabalhadores durante a jornada de trabalho (pausas para refeição, pequenas pausas) e, no entanto, os ritmos de trabalho não param de aumentar assim como as angústias e as depressões (…) os trabalhadores de turnos de laboração contínua têm visto o seu direito ao repouso, lazer e convívio com a família e amigos, ser posto em causa e de não poderem desenvolver actividades sociais, nem sequer poderem estudar(…) os trabalhadores são vitimas de um desgaste e de um envelhecimento precoce, o que exigia que tivessem muito mais tempo de férias (…) o patronato retira altas rentabilidades desta organização do tempo de trabalho, mas a fatia é muito pequena para os trabalhadores" (p.162).

"Maria do Carmo Tavares refere "embora pareça contraditório, passado mais de meio século sobre a Declaração dos Direitos do Homem e, apesar da luta incessante dos trabalhadores pela redução da jornada de trabalho com o objectivo de um maior repouso e da criação de mais emprego, a pressão do desemprego e a precarização estão a levar a maiores cargas de horário sobre os trabalhadores, a menos férias e, consequentemente, a menos descanso (…) perante todo este liberalismo desenfreado até o direito a férias está a ser questionado, pois pretende-se ligá-lo à assiduidade, nomeadamente ao facto de se ter estado doente (p.163). "

domingo, 2 de março de 2008

NÓS E OS OUTROS

"...As qualidades de cada um estão no poder de percepção dos outros..."
PC

TRANSPARÊNCIA

"...Porém cantar é ternura escrever constrói liberdade e não há coisa mais pura do que dizer a verdade...."
ARY DOS SANTOS

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

UMA IMAGEM .... MILHARES DE OLHARES


terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

INDIVIDUALISMO / COLECTIVISMO

"O individualismo por definição não sugere nenhum programa concreto de mudança das condições sociais"

Para mim, o individualismo, é um princípio dominante, que encontramos em vários blogues ligados à Enfermagem. O que me deixa algo preocupado em relação ao futuro por eles preconizado. Certamente favorecedor de um liberalismo selvagem.

Continuarei a defender o COLECTIVISMO como agente de importantes mudanças das condições sociais, em antítese naturalmente.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

NA PRIMEIRA FILA DO TEATRO DA VIDA

“Um profissional de saúde é uma pessoa que sofreu profundas modificações como resultado de treinamento especializado, do conhecimento e da experiência; são pessoas diariamente expostas à dor, à doença e à morte, para quem essas experiências não são mais conceitos abstratos, mas sim, realidades comuns. De muitas maneiras, é como estar sentado na poltrona da primeira fila no teatro da vida, uma oportunidade inigualável para adquirir um profundo conhecimento e maior compreensão da natureza humana”.
REMEN (1993, p.180)

sábado, 23 de fevereiro de 2008

21 ANOS APÓS A SUA MORTE

Amigo Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento É meu amigo também
Não percas tempo que o vento É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também Aqueles
Aqueles que ficaram(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

FORMAÇÃO NA MUDANÇA

"...Defendo um modelo de formação na mudança, inserido e ajustado a cada contexto, porque criado pelos seus actores. Só assim os aprendentes se sentirão realmente envolvidos num processo que lhes pertence e diz respeito e no qual são co-construtores. Então assim aprende-se. porque se pensa, porque se cria, porque se experimenta se re-experimenta, porque se constrói e se re-constroi, porque se muda e se transforma. Esta forma de encarar a formação exige novas políticas e novas dinâmicas de formação nos hospitais. Exige uma nova atitude por parte dos centros de formação, que devem estar também e principalmente nos Serviços, ajudando a dinamizar os actores, nesse processo cujos resultados muitas vezes só são perceptíveis por eles mesmos (na sua prática diária) e acima de tudo pelos utentes (porque é afinal por eles que todos existimos profissionalmente). O valor social da formação deve ser o desenvolvimento, o desenvolvimento do indivíduo (e não apenas do profissional), do grupo e do contexto (necessariamente a mudança) e não o cumprimento de objectivos definidos externamente por lógicas muitas vezes demasiado tecnocratas. Este desenvolvimento faz-se em meu entender, mais pela aprendizagem dos actores (construção, formação informal e não formal em contexto de trabalho), do que pela formação que para eles se concebe (formal e exterior)..."
Este texto é parte de um comentário "anónimo" feito neste blog dia 8 Fevereiro, ao Post "Devemos formar para mudar ou mudar para formar?"

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

NOVAS PROBLEMÁTICAS DA SAÚDE


Ora aí está. O complemento de formação no seu auge….


Já aqui vos falei da monografia, e da intenção de estudar o impacto dos vínculos laborais na satisfação profissional.

Mas como diria o poeta o mundo pula e avança como uma bola colorida nas mãos de uma criança. E esta bola deve ser saltitona, e que cada vez mais, pula e avança. “Como uma força que ninguém pode parar”.

Desta vez falo de um outro trabalho, ainda no tubo de ensaio, ainda em fase de preposição ao docente responsável pela cadeira. A ver vamos….

O desafio do docente, prende-se com as NOVAS PROBLEMÁTICAS DA SAÚDE no que diz respeito à globalização e multiculturalidade.

Eu, o João Quintinha, o Paulo Cunha (estes de quem já aqui falei) mais 3 colegas: Dália, Margarida e Cláudia, as 2 primeiras do CS Mafra e a 3ª da Médis, propomo-nos abordar a temática pelo lado da espiritualidade/religiosidade. Ou seja que desafios se colocam ao Enfermeiros na sua praxis diária perante Hindus, Cristãos, Muçulmanos, Budistas, Testemunhas de Jeová e Judeus. Ou se quisermos o que estes seres humanos sentem quando confrontados com o mesmo cuidado de Enfermagem.

Estaremos nós despertos e atentos para respeitar rituais, crenças, valores num momento como por exemplo, o cuidar do corpo deste?

Mais do que tudo queremos dar voz a estas comunidades e reperspectivar acções….

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

NOVAS CARREIRAS !

"Nota informativa da Presidência da República sobre a promulgação do Decreto da Assembleia da República que estabelece os regimes de vinculação, de carreiras e de remunerações dos trabalhadores que exercem funções públicas
O Presidente da República promulgou hoje o Decreto da Assembleia da República que estabelece os regimes de vinculação, de carreiras e de remunerações dos trabalhadores que exercem funções públicas, após o mesmo ter sido expurgado das inconstitucionalidades objecto de pronúncia pelo Tribunal Constitucional.
A este propósito, recorda-se que o acto de promulgação de um diploma legal não significa necessariamente a adesão do Presidente da República às opções políticas que lhe subjazem, nem implica a sua concordância com todas as soluções normativas nele inscritas.
O referido diploma suscita dúvidas em dois planos, as quais, na altura devida, foram expressas pelo Presidente da República, designadamente no pedido de fiscalização preventiva da constitucionalidade enviado ao Tribunal Constitucional.
Assim, por um lado, o diploma em apreço continua a consagrar soluções que, por pouco claras e transparentes, podem criar dificuldades de percepção por parte dos respectivos destinatários, potenciando situações de conflitualidade no seio da Administração Pública.
Por outro lado, subsistem dúvidas quanto à remissão para simples portaria da regulação de matérias de carácter inovatório e ainda quanto à preferência concedida a pessoas colectivas na celebração de contratos de prestação de serviços, o que pode implicar uma excessiva e injustificada dependência da Administração Pública relativamente a grandes empresas privadas.
A Assembleia da República, com plena legitimidade, decidiu apenas eliminar as inconstitucionalidades assinaladas pelo Tribunal Constitucional, não tendo realizado qualquer outra alteração ao diploma que contribuísse para o seu aperfeiçoamento e para a correcção de situações potenciadoras de incerteza jurídica.
A decisão de promulgar o diploma em apreço resultou da ponderação atenta e cuidada a que o Presidente da República procedeu em torno de todos os interesses em presença, considerando, designadamente, não dever obstar à entrada em vigor de um quadro legal que o Governo considera da maior importância para a necessária reforma da Administração Pública Portuguesa.
20.02.2008"
Destacados do texto são da minha autoria

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

SER HUMANO

“Todo o ser humano é diferente de mim e único no universo; não sou eu, por conseguinte, quem tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever: o de o ajudar a ser ele próprio.”
Agostinho da Silva

DE OLHO NA SEMANA QUE PASSOU, ESPREITO O QUE AÍ VEM...


Foi uma semana cheia, mas também em cheio….


Na segunda, foi o tal dia de entrega do trabalho de formação, O PORTFÓLIO “OLHARES REFLEXIVOS” foi por fim entregue.

Na quarta, tivemos frequência de Enfermagem, uma Recensão Crítica de um texto – Foi interessante, mas muito pouco espaço, para tanto que me apetecia escrever.

A noite foi de descompressão, a malta da turma A do 8º CCFE da ESEL pólo ESEMFR foi jantar. Momento excelente de descontracção, boa comida, boa bebida e acima de tudo fantástica companhia. O grupo é impecável. Gente divertida, mais um momento de partilha.

Fim-de-semana – Fiz 12 anos de curso e mais um almoço, o 12º em Coimbra. Que bom que é puder conviver ao fim de 12 anos com aqueles que convivi durante 3 anos. O VII Curso Superior da BISSAYA lá foi ao Leitão. O melhor - reflectir sobre a evolução, a nossa e a da profissão. Sem dúvida que é de louvar o espírito que ainda hoje mantemos, muito bom. Partilhamos situações, vivências, desafios, dúvidas. E para o ano lá estaremos para o 13º, dia 21 de Fevereiro de 2009, Temos que continuar esta dinâmica social e reflexiva. E já agora, ver se as mulheres continuam cada vez mais bonitas como até aqui e nós homens com mais barriga. E os “putos” a crescerem saudavelmente.

Lógico que a semana foi também marcada pelos turnos, com cada vez mais situações novas e desafiadoras.

Um único lamento, não consegui estar presente no Congresso da CGTP, tenho pena, o debate é sempre gerador de novos conhecimentos e do alargar de fronteiras. Desde já uma saudação especial para os novos membros da direcção da CGTP, da qual desde este sábado deixo de fazer parte. Mais um ciclo e uma fase da minha vida que se encerra de forma voluntária e amplamente reflectida.

A semana que agora começa, vai ser, a de dar o mergulho definitivo no Projecto de Investigação e Monografia, em conjunto com 2 colegas, ou por outra 2 amigos, João Quintinha e Paulo Cunha, lá vamos investigar - O IMPACTO DOS VÍNCULOS LABORAIS DOS ENFERMEIROS NA SUA SATISFAÇÃO PROFISSIONAL - . Mais um novo e inquietante desafio…

Não esquecer ainda esta semana, o início, já com Bolonha, de mais uma “ronda” de aulas aos alunos do 4º ano da ESE São Vicente de Paulo, agora Universidade Católica.

Felizmente que continuo a ter mais projectos do que memórias…

domingo, 17 de fevereiro de 2008

OLHAR O BLOG DE UMA AMIGA


"entalada pelo tempo
empurrada pela obrigação. as letras têm-me feito companhia aos ouvidos e à retina, com e sem sentido para o saber, para o aplicar numa realidade praxeológica a ocupar as horas de dia. entre as páginas a ler e reter sentidos, vejo-me aqui para um ali, não sei aonde. tanto suor neuronal para um amanhã cioso de ser concretizado e remunerado, mas quase certo que será um presente depois de amanhã. um futuro igual ao dia de hoje, pois nos dias de hoje a dedicação ao saber é um garante para nos fecharem no cofre para ninguém ouvir a voz da sabedoria, para não acordar os direitos (que se encontram na chacinia das suas mãos) e eles darem mais do que migalhas."


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Recensão Crítica

Hoje é dia da primeira frequência em sala de aula. Uma Recensão Crítica de um artigo.
Vamos ver como a coisa corre, depois dou notícias.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

INQUIETUDE

Sempre fui alguém que gostei de opinar, logo já por divesas vezes fiz artigos de opinião, - partindo de algo. De um facto, de uma lei de um texto de um cuidar, de uma reforma na saúde.

Fichas de leitura - também já, julgo eu, aprendi a fazer, 1º referências do autor, depois aspectos mais marcantes do texto com citações e depois a nossa opinião reflexiva.

Recensão Crítica - Pega-se num texto aborda-se o essencial que o autor quiz transmitir segundo várias regras de encadeamento e dá-mos a nossa opinião.

Não hei-de eu andar inquieto. Arranje-se lá uma coisa que seja um misto elaborado dos 3 exemplos que acabei de dar.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

COMPETIÇÃO DE REMO

“UMA LIÇÃO DE GESTÃO!

Portugal enviou a sua equipa nacional ao Japão, para uma competição de remo. A competição tem lugar e a equipa Portuguesa fica pessimamente classificada, a uma hora da equipa ganhadora, a Japonesa.

Os responsáveis da federação, indignados, fazem uma sucessão de reuniões para diagnosticar as razões de tão mau resultado, produzindo no final o seguinte relatório:

Japão – 1 Chefe de Equipa / 10 remadores
Portugal – 1 Chefe de equipa / 9 assessores / 1 remador

Descoberto que esteva o grande erro, a equipa portuguesa é remodelada para a competição seguinte.

Mais uma vez os Japoneses foram os ganhadores, tendo a equipa portuguesa ficando a 2 horas das dos vencedores.

Novas reuniões, viagens de estudo, contratação de uma consultora, relatório constou:

Japão – 1 Chefe de Equipa /10 remadores
Portugal – 1 Chefe de equipa / 3 chefes de departamento / 6 chefes de secção / 1 remador

Feita uma nova identificação de causas, uma vez mais a equipa é remodelada. Desta feita tudo foi levado em conta: reizing, dowsizing, engineering, consulta a economistas e gestores, contratação de consultores, integração de conceitos de modernidade, etc, etc, tudo passou a ser considerado.

Porém na hora da competição, Portugal tem nova derrota ainda mais clamorosa. Fica a 3 horas dos vencedores.

Depois de muita discussão, inquéritos e recurso à legislação chega-se finalmente a uma conclusão: desta feita definitiva:

O PROBLEMA ERA O REMADOR!
Claro e evidentemente que com toda a certeza, por culpa do sindicato ……..
”
(Manuel Oliveira)

Parece-me um pouco a Enfermagem e os comentários recentes que tenho lido neste e noutros blogs, da parte de alguns remadores, ou por outra Enfermeiros. A culpa é sempre de quem não deve ser!

sábado, 9 de fevereiro de 2008

AINDA AS QUESTÕES DO EMPREGO (II PARTE)

"Rui,
Em primeiro lugar, e por ser a primeira vez que comento um post neste teu espaço reflexivo, aproveito para te felicitar por mais um espaço que é colocado à nossa disposição para reflectirmos, trocarmos ideias e debatermos assuntos relacionados com a Enfermagem e os enfermeiros.
Não poderia deixar de passar a oportunidade que nos deste para debater este assunto, mesmo que tardiamente, sem colocar aqui algumas ideias relativamente ao emprego/desemprego na Enfermagem.
Respondendo directamente à questão que colocas, começo por dizer que poucos ou mesmo nenhuns são os serviços onde são cumpridos os rácios enfermeiro/utente preconizados e onde as horas de cuidados de enfermagem necessárias são iguais ou superiores às que são preceituadas para dar resposta às necessidades em cuidados de enfermagem dos utentes.
Aliás, antes de termos como fonte os estudos e recomendações feitos pela OCDE, como nos elucida o nosso colega DOUTOR ENFERMEIRO, julgo ser pertinente olharmos para os estudos e análises feitos no nosso País, nomeadamente, os produzidos pelo nosso Ministério da Saúde.A escassez de enfermeiros nas instituições prestadoras de cuidados de saúde, sejam elas de que tipo forem, não é, por muito que nos façam crer, uma qualquer ilusão ou invenção, mas sim, uma constatação com a qual nos deparamos diariamente, fruto da imposição de elevadas sobrecargas de trabalho, do não cumprimento das dotações seguras preconizadas, da sonegação constante e sucessiva do gozo de elementares direitos, entre outros exemplos.
Já aqui se comentou levando em consideração os rácios de enfermeiros existentes por habitantes. Falou-se da Áustria e da Irlanda e usaram-se os seus rácios para afirmar que quantidade não é sinónimo de qualidade. O que não se referiu é que em Portugal, o rácio de enfermeiros que exercem funções por habitante, que é de 4,5 por cada mil, é dos piores que se verificam no conjunto dos países da UE e muito inferior à média desses mesmos países, que se cifra nos 7,5 por cada mil.
Esta mesma situação, para que não pensem que é mais uma ilusão gratuita, é assumida no relatório preliminar sobre "Cuidados de Saúde e Cuidados de Longa Duração" produzido pelos Ministérios da Saúde e do Trabalho e da Solidariedade Social, apresentado ao Comité de Protecção Social da Comissão Europeia e onde se pode ler, na página 8, o seguinte: “O País [Portugal] apresenta, ainda, no contexto comunitário, um dos mais baixos números de enfermeiros por habitante…”.Por outro lado, convém relembrar que no que diz respeito à área dos Cuidados de Saúde Primários (CSP), Portugal subscreveu as indicações da OMS que apontam para um rácio de um enfermeiro por cada 300 famílias.
A implementação desta metodologia de organização do trabalho, salvo muito raras e honrosas excepções, ainda não foi conseguida efectivar na prática, não por falta de vontade dos enfermeiros mas sim pela escassez de enfermeiros que existe na globalidade dos centros de saúde.Ainda em relação à área dos CSP e levando em consideração o último Censos, datado de 2001, para que cada família tivesse o seu enfermeiro de referência seriam necessários admitir mais 12 170 enfermeiros.
Ao invés disso, e ainda segundo dados do próprio Ministério da Saúde, que se encontram publicados na página da Administração Central do Sistema de Saúde, IP (ACSS, IP), o número de enfermeiros a exercerem funções nos centros de saúde, entre 2003 e 31/12/2006 diminuiu em 104.Correndo o risco de ser exaustivo não poderia deixar ainda de referir, no âmbito dos CSP, algumas conclusões do estudo elaborado pela Secretaria Geral do Ministério da Saúde, datado de Janeiro de 2007, e que se intitula “Cálculo das Necessidades de Pessoal de Enfermagem no SNS”. Este estudo, que tem como amostra apenas 12 Centros de Saúde, elucida-nos bem da efectiva carência de enfermeiros.
Na página 23 do referido estudo é afirmado que “com efeito, em 31/12/2005 o valor total de horas anuais de enfermagem previsto nos quadros de pessoal dos diferentes CS era de 430 548 (...) No entanto, foram efectivamente perfeitas 458 353 horas anuais, correspondendo a mais 6,5% das horas previstas nos quadros de pessoal.
Para além das horas acima referidas, verificou-se a necessidade de recurso a mais 28 303 horas prestadas em regime de trabalho extraordinário (...)”.Continuando, referem, ainda na mesma página, o seguinte: “a diferença, entre a carga horária anual prevista e a efectivamente existente, traduz a desadequação dos quadros/mapas de pessoal, face às actuais necessidades das populações e ao aumento e diversificação das intervenções nos CSP”.
No que diz respeito à área hospitalar, e pese embora entre o mesmo espaço temporal (2003-31/12/2006) o número de enfermeiros a exercerem funções nos hospitais, ainda segundo a ACSS, IP, tenha aumentado 1 445, existem estudos do Ministério da Saúde, ou de entidades da sua dependência, que nos continuam a demonstrar que as carências de enfermeiros nos hospitais são ainda mais alarmantes.
A aplicação do sistema de classificação de doentes por níveis de dependência espelhou, no relatório do IGIF relativo ao ano de 2004, uma carência no número de horas de cuidados de enfermagem necessários por doente internado de cerca de 21 000 enfermeiros.Fazendo referência novamente ao estudo “Cálculo de Necessidades de Pessoal de Enfermagem no SNS”, o estudo chega à conclusão (página 29) que nos 44 hospitais onde é utilizada esta fórmula de cálculo das necessidades em horas de cuidados de enfermagem há “uma necessidade de 5 373 enfermeiros”.Como tal, e perante todos estes indicadores que são da responsabilidade do próprio Ministério, parece-me difícil que qualquer um de nós consiga afirmar que existem em Portugal um número suficiente de enfermeiros a exercerem funções nos mais diversos serviços.
Compreendo que muitos orientem a sua opinião pelo facto de começarem a existir importantes bolsas de desemprego junto dos enfermeiros, mas já não compreendo que ao invés do que seria de esperar, isto é, lutarmos por maiores admissões e pela efectivação das dotações seguras – isto sim seria defender a profissão, alinhemos no discurso de que existem enfermeiros a mais em Portugal e, desta forma, contribuamos de forma activa para sermos veículos privilegiados de destruição da profissão.Sejamos conscientes.
O que se passa com os enfermeiros não é diferente do que se passa com outros trabalhadores e faz parte de uma política de emprego mais global baseada, também ela como as restantes, na obsessão pela contenção do défice, no saneamento das contas públicas e perseguição compulsiva do cumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento.
Assim sendo, mesmo com o reconhecimento objectivo e concreto das carências, o que se pretende é limitar ao máximo as admissões e criar bolsas de desemprego, sempre na perspectiva de desregular o mercado de trabalho e as suas condições, de diminuir ao máximo o valor económico do trabalho e, desta forma, desvalorizar o valor social do trabalho que, consequentemente, levará à desvalorização do papel social das profissões.Este é o principal motivo pelo qual existe neste momento desemprego, voluntariado, estágios profissionais não remunerados, entre outros exemplos, na Enfermagem.
Ao contrário do que seria de esperar são os próprios enfermeiros, num sentido altamente corporativista e redutor, a dizerem que existem em excesso e a dar motivos para que a situação se agudize ainda mais. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a força de uma profissão e o seu poder reivindicativo não se avaliam pelo seu número, mas sim pela união no processo de tomada de consciência colectiva e na mobilização para a acção.
Para terminar dizer que não sou, nunca fui, nem serei defensor da teoria de que quantidade é sinónimo de qualidade. Contudo, como enfermeiro que sou sei que dotações adequadas de enfermeiros nos serviços, para além de induzirem directamente a nossa produtividade, satisfação e motivação, traduzem-se num inequívoco elevar do patamar da qualidade e da segurança dos cuidados de enfermagem que prestamos aos utentes.
Não tenho dúvidas em afirmar que só pela admissão de mais enfermeiros nas diferentes instituições de saúde e pelo cumprimento das dotações preconizadas é que estaremos em condições óptimas para responder aos desafios que o futuro nos reserva.
Acredito que os enfermeiros não se alienarão desta exigência até porque percebem que esta é uma das respostas a dar para as cada vez maiores exigências e necessidades das populações em matéria de cuidados de saúde."
PEDRO FRIAS

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

DEVEMOS FORMAR PARA MUDAR OU MUDAR PARA FORMAR ?

"A formação tem assumido uma dimensão ideológica, porque se autojustifica, isto é, a formação é boa em si mesmo, sempre aprendemos algo com a formação, o que faz dela um amplo campo de consenso social. Mas será que ao não questionarmos a forma como é concebida e desnvolvida não estaremos a recusar o nosso protagonismo no processo? Ou será que o papel passivo é mais cómodo?
Devemos formar para mudar ou mudar para formar?
A simultaniedade faz sentido?
Os efeitos da formação têm tido as repercussões esperadas na prática de cuidados? Os contributos da formação têm-se feito sentir in situ de forma a melhorar a qualidade dos cuidados?
Eu diria que a formação só faz sentido se conseguirmos reaquacionar o papel da formação e transferir as aprendizagens realizadas na situação de formação, para a prática de cuidados. É importante promover a formação na acção, através da reflexão e discussão das situações decorrentes da prática diária, para mobilizarmos e repensarmos conhecimentos.
Os momentos de reflexão, as paragens para pensar são indispensáveis na caminhada dos enfermeiros, permitindo-lhes na práxis diária níveis progressivos de desenvolvimento, conduzindo-os para a autonomia.Existe um ditado popular que diz "diz-me com quem andas, dirte-ei quem és" por analogia eu diria " diz-me que formação fazes, como a mobilizas para a prestação de cuidados, dirte-ei que cuidados prestas" "
Teresa Branco