domingo, 20 de janeiro de 2008

EM CONTRACICLO COM OS ARAUTOS DA ENFERMAGEM EM PORTUGAL...


"... Ao longo deste livro evitamos a utilização da palavra "consumidor" ou "cliente" para descrever as pessoas de quem as enfermeiras cuidam. Esta escolha é deliberada. A palavra "consumidor", de acordo com o diccionário, possui dois significados. Um afirma que se trata de alguém que consome, gasta, desperdiça ou destrói. O outro, "alguém que utiliza bens e serviços para satisfazer as suas necessidades", pertence a economia. A primeira definição é negativa e a segunda é uma definição extremamente redutora e mercantilista dos seres em relação à doença e à saúde. Somos da opinião que deturpa gravemente a relação entre os prestadores de cuidados e as pessoas que procuram o seu cuidado e o seu conselho.

....Da perspectiva da comunicação pública, falar de enfermeiras em relação ao consumidor desvia a atenção do hospital, do lar, da clínica ou da clínica de cuidados terminais para o centro comercial, sugerindo que o seres humanos podem escolher saúde da mesma forma que escolhem um vestido novo e que podem, em consequência, exercer controlo quando menos são capazes de o fazer. Preferimos usar as palavras "ser humano", "individuo", "pessoa", "doente" e " família"...."

GORDON, Suzanne; BURESH, Bernice - DO SILÊNCIO À VOZ

Sem dúvida que o que importa é a qualidade dos cuidados..., no entanto, esta discussão é muito actual. Numa altura em que politicamente a Saúde é entendida como um bem mercantilizável e sujeita aos mesmos princípios que qualquer fabrica de enchidos, ou seja, encerram-se serviços quando não existe o número dos ditos "clientes" para darem lucro..... Talvez a melhor opção seja chamar ao ser humano, que cuidamos, de cliente.

Se por outro lado entendermos saúde como um bem Social e Essencial às pessoas, efectivamente, nos afastaremos dos novos arautos da Enfermagem e da Gestão e continuaremos a dar razão às autoras deste cintilante livro. E continuaremos a usar o termo ser humano.

A minha opção está feita e amanhã de manhã continuarei no meu serviço a cuidar dos seres humanos com necessidade de cuidados de Enfermagem.

Não sei se se recordam de o Srº Ministro (Correia de Campos), sobre aposentação, ter comparado os Enfermeiros com as Operárias Texteis. Todos ficaram chocados. O que me chocou não foi comparar profissões, foi mesmo o objecto delas. Eu, enquanto Enfermeiro, laboralmente não sou diferente da dita Operária. No entanto os seres humanos que cuido são muito diferentes dos tecidos "operados" pelas citadas Operárias. Daí ser contra a palavra Cliente ou Consumidor.

Nem tudo o que está na moda, para mim se deve usar. Apesar da comunuidade cientifica gostar muito da dita clientela.

Qualquer dia, enquanto seres humanos, vamos ao Hospital comprar 2 litros de soro, e meia dose de apoio emocional e já agora para sobremesa compram-se uns quilos de cuidados de higiéne e conforto regados com meia dúzia de mobilizações. Porque a dúzia pode ser muito cara.

sábado, 19 de janeiro de 2008

ALBERT EINSTEIN

“Somente duas coisas são infinitas: O universo e a estupidez humana. E não estou seguro quanto ao primeiro.”

Albert Einstein

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

E N F E R M E I R O

“alguém a quem a sociedade tem o direito de exigir competência e pedir responsabilidade”
ALARCÃO, Isabel

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

APREENDER COM O VIVIDO E DAÍ ALTERAR O FUTURO...

“ Os processos de educação informal cobrem uma variedade de aprendizagens mais ou menos consciencializadas pelos indivíduos, que influenciam de modos distintos as práticas e as identidades profissionais. Apesar da importância de todas estas aprendizagens, aquelas que apresentam maior interesse para a formação estão relacionadas com o desenvolvimento de processos de educação informal baseados na experiência, que ocorrem na sequência de situações nos quais os indivíduos pensam sobre os acontecimentos que vivem e que estão na origem de posteriores alterações de comportamentos e atitudes.” (Guimarães, 2004).
ESTE É O NOSSO DESAFIO....

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

OS MACACOS E AS BANANAS - O PORQUÊ DO QUE FAZEMOS...



"Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa gaiola e, no meio desta, uma escada com bananas em cima.

Toda as vezes que um dos macacos começava a subir a escada, um dispositivo automático fazia jorrar água gelada sobre os demais macacos.

Passado certo tempo, todas as vezes que qualquer dos macacos esboçava um início de subida na escada, os demais o espancavam (evitando assim a água gelada). Obviamente, após certo tempo, nenhum dos macacos se arriscava a subir a escada, apesar da tentação.


Os cientistas decidiram então substituir um dos macacos. A primeira coisa que o macaco novo fez, foi tentar subir a escada. Imediatamente os demais começaram a espancá-lo.

Após vários espancamentos o novo membro desta comunidade aprendeu a não subir a escada, embora jamais soubesse porquê.

Um segundo macaco foi substituído e ocorreu com ele o mesmo que com o primeiro. O primeiro macaco que havia sido substituído participou, juntamente com os demais, do espancamento.
Um terceiro macaco foi trocado e o mesmo (espancamento, etc.) foi repetido. Um quarto e o quinto macaco foram trocados, um de cada vez, com intervalos adequados, repetindo-se os espancamentos dos novatos quando das suas tentativas para subir a escada.

O que sobrou foi um grupo de cinco macacos que, embora nunca tenham recebido um chuveiro frio, continuavam a espancar todos os macacos que tentassem subir a escada.

Se fosse possível conversar com os macacos e perguntar-lhes por que espancavam os que tentavam subir a escada ... Aposto que a resposta seria:

“Eu não sei – esta é a forma como as coisas são feitas por aqui”

Isto, ou este comportamento, esta resposta, não lhe parecem familiares ???"

Texto extraído de um mail formato PoewrPoint enviado pelo Enfermeiro Luís Miguel Ferreira, Enfermeiro do Hosp. Pulido Valente, EPE e meu Colega do VIII CCFE da ESEL polo ESE MFR. Na introdução do mail é referido " ....A apresentação que se encontra a partir do próximo slide foi criada por artista israelense desconhecido e editada em inglês por Cindy Holdemqueen. O original tinha os textos em inglês e hebraico...". O texto sofreu algumas alterações por se encontrar redigido em Brasileiro.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A FORMAÇÃO REFLEXIVA DOS PROFESSORES: ideias e práticas


ZEICHNER, Kenneth (1993)

A autora deste artigo é reitora adjunta da University of Wisconsin- Masndison, docente da Sccoll of Education, como áreas de estudo é de referir Educação de Professores e Educação Primária.

O texto é uma elaborada dissertação do professor enquanto prático reflexivo. Começaria por dizer que em alguns aspectos poderemos traçar neste texto algum paralelismo entre o que o autor sugere para os professores enquanto práticos reflexivos e o que se impõe que sejam os enfermeiros, igualmente práticos reflexivos.

O autor enquadra muito a necessidade dos professores do seu estudo, no caso americanos, fazerem uma reflexão exterior a si próprios, no colectivo e que levem em linha de conta as questões sociais.

Em todo o texto a preocupação social é espelhada pelo autor, “também tenho desenvolvido esforços para promover a causa da profissionalização dos professores em paralelo com a construção de uma sociedade mais justa e decente”.

O movimento da prática reflexiva pretende, segundo o autor, que os professores sejam tidos em conta nas reformas a realizar e que as reformas surjam de dentro e para dentro das instituições de ensino, logo os professores têm que assumir um papel determinante no comando destas mesmas reformas. O desafio é deixado aos formadores dos professores durante a formação inicia, estes devem ter “ ….a capacidade de estudarem a maneira como ensinam e de a melhorar com o tempo, responsabilizando-se pelo seu próprio desenvolvimento profissional.”

O autor diz-nos que a reflexão implica, emoção e paixão, indo mais longe ao afirmar que os professores reflexivos “perguntam-se constantemente porque estão a fazer o que fazem na sala de aula”, julgo que este é o raciocínio problematizador, ou se quisermos reflexivo que norteia muitos dos enfermeiros portugueses. Mas também neste estudo os professores americanos revelam algumas limitações organizacionais e institucionais para a prática reflexiva “falta de tempo, alunos a mais, cumprir o curriculum, etc”. Tão bem se faz a comparação com aquilo que vamos ouvindo dos enfermeiros, - que tudo é impossível porque há muito trabalho, doentes a mais, enfermeiros a menos e uma série de coisas que têm que ser feitas, diria eu rotinas. Mas também aqui o autor citando Dewey se refere ao necessário “equilíbrio entre reflexão e a rotina, entre o acto e o pensamento”.

A prática reflexiva está naturalmente associada aos contextos da acção e gera autonomia, o momento para reflectir ocorre antes, durante e depois da acção. Só assim faremos análise crítica das práticas e discussão das mesmas. Esta reflexão faz-se individual e colectivamente sempre inserida num contexto social próprio.

O autor contudo também refere que muitas vezes o termo reflexão é abusivamente usado para “criar a ilusão de desenvolvimento dos professores”.

O professor reflexivo tem de ser um ser virado para o exterior, tem que ser um ser capaz de fazer análise social “não estou a pedir aos professores que se debrucem apenas sobre as consequências sociais e políticas do seu trabalho, mas simplesmente que incluam estas considerações no seu pensamento”, serem detentores de um projecto de intervenção que sustente o crescimento.

“O ideal é criar uma situação na qual os alunos-mestres se sintam à vontade para discordar dos seus tutores”.

domingo, 13 de janeiro de 2008

CONTRIBUTOS DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL CONTÍNUA PARA A QUALIDADE DOS CUIDADOS DE ENFERMAGEM


BOTELHO, José Rodrigues
Enfermeiro, Mestre em Ciencias da Educação
"A formação não se adquire por acumulação de cursos e diplomas (Nóvoa, 1991) mas sim pela reflexão crítica sobre o trabalho do dia a dia, junto do utente, na aquisição e desenvolvimento das necessárias competências pessoais e profissionais. Deve estar intimamente ligada ao desempenho profissional pelo que o modelo escolar apenas se entende como subsidiário da formação realizada no próprio local de trabalho. Este deve ser o contexto de eleição para a realização da formação. É neste local que deve ser implementada a maior parte das acções de formação, pela interacção entre os saberes e as práticas do dia a dia."

Este será o mote de um pequeno espaço de debate que levarei a cabo em conjunto com a responsável pela formação em serviço do meu actual local de trabalho, no final do corrente mês, com o objectivo de reflectir com os enfermeiros, da importância da formação em contextos de trabalho, originando mudanças qualitativas das práticas profissionais. Entendo ser o meu melhor contributo profissional no final desta disciplina (Formação em Contextos de Trabalho). Ou seja, mobilização prática das reflexões realizadas.

sábado, 12 de janeiro de 2008

UMA AFIRMAÇÃO QUE NESTE BLOG PROCURAMOS CONTRARIAR...

"O homem é mais propenso a contentar-se com as ideias dos outros, do que a reflectir e a raciocinar."

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

NÃO DEIXES PARA AMANHÃ…


CRUZ, Paula - Enfermeira na Unidade de Cuidados Paliativos da Casa de Saúde da Idanha

"Março de 2006…

Depois de, durante 1 ano, um grupo de enfermeiros e outros técnicos, em equipa, se terem preparado para cuidar de doentes em cuidados paliativos, no dia 6 de Março iniciamos a nossa caminhada,
todos muito conscientes do desafio que era,
iríamos ter connosco pessoas a morrer
e que tinham direito a que lhe proporcionássemos uma morte digna.

O que é que nos esperava?
Será que íamos conseguir?

A intensidade com que vivemos cada minuto do primeiro dia, era tal, que para nós era como se estivéssemos a viver o primeiro dia do resto das nossas vidas.
A partir daquele dia uma parte de nós tinha a grande responsabilidade
de receber a pessoa na maioria das vezes para morrer
e de transformar esses últimos dias de vida
nos primeiros com direito obrigatório
a uma assistência digna para uma morte tranquila.

Depois de todas as hipóteses curativas serem esgotadas
Eis que chegam até nós…

Cansados do sofrimento
Esgotados por não conseguirem ser donos dos seus dias
Fartos de não poderem fugirem da impotência dos médicos

Assustados por não saberem afinal quantos dias lhes restam
Mas com a certeza de serem muito poucos
Horrorizados por pensarem naquela dor que os acompanha
desde que lhe disseram
Você vai morrer de cancro…
Completamente perdidos no meio de um pântano sem cordas
Pois a sua família vai ficar sem hipóteses de sobrevivência

Habituados a paredes brancas
As enfermarias de 6 camas
As pessoas a gemerem sozinhas na cama ao lado
A terem as suas famílias do lado de lá do corta-vento
Á correria dos profissionais que não têm tempo de parar
Para lhe fazer companhia
Para os ouvir
Para lhe dar a mão

E aqui estamos nós…
Prontos a cuidar destes doentes

O que é que vamos fazer?
Aliviar-lhe o sofrimento:

Para a dor damos o analgésico
Para a agitação a sedação
Para o vómito o antihemético
Para a dor d`alma damos a mão

Claro que sabemos que a maioria destas pessoas
Vão morrer connosco
Claro que sabemos que não podemos
Fazer parar o percurso da doença
Mas também sabemos que a qualidade de cuidados
Que temos para lhes oferecer
Transpõe toda e qualquer perspectiva da cura

Com a D. L..... a D. F...... e respectivas famílias, iniciamos a nossa caminhada.
Seres humanos desesperados,
Com histórias de vida carregadas de recordações.
Sofrimento estampado nas caras.
Pedidos de socorro, conscientes que não teriam resposta por estarem a morrer.
Famílias perdidas, histórias por resolver, sentimentos por partilhar.
Medo do desconhecido, certezas de estarem a terminar.

E nós?
Profissionais de saúde com a prática de curar.

E agora, o que é que nos era pedido?
Por favor tirem-me as dores!
Por favor não quero vomitar mais!
Por favor, ela está com falta de ar!
Por favor tirem-me este sofrimento!

E nos olhares perdidos dos familiares, pedidos de socorro...
Por favor não a deixem morrer ainda!
Por favor, eu quero-lhe dizer que…!
Por favor salvem-na!
E nós?
Nós vamos tirar-lhe as dores.
Nós vamos parar-lhe os vómitos.
Nós vamos tratar-lhe dos sintomas que lhe causam sofrimento.
Mas também estamos aqui para os ajudar a unir as mãos mesmo em silêncio.
Diga-lhe tudo o que ainda não teve oportunidade de dizer…
Diga-lhe que perdoa…
Diga-lhe que a ama…
E nós…!
Para além de cuidadores…somos seres humanos!
A receber pessoas para, passadas poucas horas nos despedirmos…
A receber pessoas que nos fazem reviver alguma dor mal curada…

A receber pessoas que vamos palear, que nos enchem o coração e que quando partem nos deixam a chorar…

Os dias foram passando…algumas duvidas foram ficando…
Afinal não somos os donos da verdade.
Estamos no inicio da construção de um forte,
em que cada pedra usada
é uma descoberta fundamentada,
E que quando assente no chão
já passou pela reflexão de quem está consciente do que quer,
de quem está a fazer tudo para que esta obra embora ainda por muitos anos inacabada, seja digna de crescer com bases humildes e verdadeiras, sem perder de vista a grande missão a que nos propomos.

Como é que os doentes que partiram sentiram a sua morte, só os próprios saberão…
Se conseguimos…não sabemos…
Mas que sofremos…também sofremos…

As famílias…estão connosco.
Fizeram parte do nosso plano de cuidados, fizeram parte da nossa equipa prestadora de cuidados, e ficaram a fazer parte da família da nossa unidade.

Vêem em nós, neste momento tão especial das suas vidas, aqueles que estão imunes de juízo de valores, aqueles que estão aqui para ajudar, para ouvir, para esclarecer…
e para, no momento da partida, dar a mão se eles não chegarem a tempo.

Somos ainda muito bebés, somos ainda muito pequeninos, com um longo caminho pela frente…mas já recebemos tanto em troca do pouco que fizemos…

É um sorriso… de quem entrou a dizer “vou para os terminais”!
É ouvirmos “obrigada por me dar tanto carinho
“ não sabia que seria possível existir um sitio em que ainda nos tratam assim

É, no casal em que a esposa está a morrer, o marido querer-lhe satisfazer o grande desejo de casar pela igreja, querer faze-lo aqui e fazer questão que uma de nós os apadrinhasse…não conseguimos dar-lhe esse sacramento…ela não resistiu ao tempo, mas ele passou a tratar a enfermeira por madrinha de um anjo…

É, o marido de uma doente dizer para uma criança, filha de outro doente, “sabes minha querida, no céu existem os anjinhos que tem asas brancas, cá na terra existem estas senhoras vestidas de branco”…

É satisfazer-lhes os últimos desejos
E aqui estamos nós
Prontos a cuidar e a ser cuidados

Aqui passámos a viver a nossa vida de uma forma diferente
Quem aprende a viver a morte aprende a viver melhor
Cada minuto tem a intensidade de uma vida inteira

Ouvimos com outros ouvidos
Vemos com outros olhos

Podemos ter um longo caminho para percorrer na descoberta dos cuidados paliativos, e durante muito tempo termos que validar quase tudo o que fazemos uma centena de vezes, mas parece-me que dentro do nosso peito já mora a missão da nossa unidade…
"


Este texto foi apresentado pela Enfermeira Paula Cruz da Unidade de Cuidados Paliativos da Casa de Saúde da Idanha durante uma aula de formação em contextos de trabalho no decurso do VIII CCFE da ESEL polo Maria Fernanda Resende. É para mim um prazer poder publicar neste espaço virtual uma experiência tão particular, que para tantas reflexões nos transporta.

O meu muito obrigado Paula por partilhares,também aqui neste blog, connosco algo de tão profundo, inovador e intimista.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

RESISTIR À MUDANÇA !

"....O problema deles é precisarem de desaprender umas quantas coisas, o que é difícil, quando esssas coisas tinham sido tão bem aprendidas! (...)
Precisam de ser capazes de ver a realidade da nova situação em que se encontram, e não da realidade tal como ela costumava ser."
REDDIN, B 1990

DIÁRIOS DE APRENDIZAGEM – PROMOÇÃO DA REFLEXÃO NA PRÁTICA CLÍNICA


PEREIRA, Esperança Gago Alves

Professora Coordenadora na Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian (ESECG) (Braga), Enfermeira especialista em reabilitação, Pós-graduada em Ciências da Educação pela Universidade de Aveiro e Mestre em Ciências de Enfermagem pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Este artigo é um resumo do trabalho de investigação da autora no referido mestrado.

A autora descreve-nos um estudo realizado com alunos do curso de bacharelato em Enfermagem da ESECG sobre a importância dos diários de aprendizagem para o processo formativo ou se quisermos reflexivo. Sobre os detalhes do estudo vou-me escusar a referir a metodologia seguida, abordando neste pequeno texto, como será natural, mais as questões expositivas e criticas dos seus princípios e resultados.

Poderia resumir o artigo ao próprio resumo da autora “ Constatamos que os diários de aprendizagem motivam o esclarecimento de ideias ou acontecimentos confusamente experienciados, já que a escrita funciona como mediador da reflexão da acção. Bem como nos sugere que as experiências significativas, surgem a partir da observação e consciencialização das acções através da reflexão e ao promover a reflexão através da experiência, também favorece a articulação entre teoria e prática”pág. 12.

De imediato me apetece parar de ler e exclamar está tudo dito.

Conjugando saberes de textos anteriores, parece-me claro. Durante o percurso formativo existem espaços teóricos e práticos, é em espaços da prática, da acção, que melhor podemos reflectir sobre algo. E este algo não é nada em abstracto, mas sim aquilo que nos marca de uma qualquer forma, que nos marca durante a essência da nossa profissão – CUIDAR. Mas afirmarei, que nos marca pessoal e profissionalmente, que nos marca quando cuidamos um doente, ou quando observamos a prática de um já “Sr. Enfermeiro”, da postura de uma equipa, da delegação de competências noutros profissionais, etc, etc. E então a melhor forma para esclarecermos o vivenciado começa por ser escrevendo-o. Como já vimos a escrita confronta-nos connosco próprios, e é neste sentido que surgem os diários de aprendizagem como forma de confronto, de uma exteriorização de dúvidas despodoradas. Mas este é um diário algo diferente daquele que na adolescência ficava guardado e trancado com uma chave. Após o momento que os escrevemos foi porque tomamos consciência de algo, processo de “conscientização” já referido por Paulo Freire, a partir daqui temos algo de material e palpável para reflectir e para mudar o que houver a mudar. Julgo que estes diários levam à mudança do eu, do outro, se quisermos de um colectivo de uma equipa.

Enquanto Enfermeiros, quantas vezes, situações surgidas em estágio com alunos nos levaram também a nós a alterar comportamentos? Julgo que muitas. Os diários de aprendizagem são pela autora abordados sempre na perspectiva de crescimento de formando e formador, extrapolando julgo que somos diariamente formandos e formadores.

E em jeito de diário de aprendizagem, por neste momento ter no meu serviço alunos em estágio, e só estar na prestação efectiva de cuidados há 4 meses, após um interregno para funções sindicais de 7 anos, ontem tive necessidade de reflectir com a responsável da formação em serviço algumas atitudes perante o aluno em estágio e os objectivos destes. Apesar de não estar directamente com nenhum, sei que serei um exemplo e ao mesmo tempo serei desafiado. Portanto durante algum tempo reflectimos, após o confronto com a realidade sobre trabalho e métodos de trabalho, pausas, objectivos. Ou seja, sem o ter escrito, também eu tive necessidade de fazer o meu próprio diário de aprendizagem para sobre ele reflectir com alguém e perspectivar formas de estar e agir na prática.

Para a autora a reflexão como processo depende:
- Auto-regulação
- Expectativas de Eficácia
- Confrontação
- Análise critica
- Mudança

“O processo de reflexão é indispensável na caminhada destes estudantes, permitindo-lhes, nos contextos de trabalho, níveis progressivos de desenvolvimento e confrontos, num processo ainda não acabado, conduzindo-os para a autonomia, o desempenho livre e responsável da sua cidadania e actividade profissional” pág. 17

Limitava-me a provocar os colegas e a plagiar a autora transcrevendo a mesma frase substituindo “…destes estudantes …” por “dos enfermeiros”. O resultado seria este:


O processo de reflexão é indispensável na caminhada dos enfermeiros, permitindo-lhes, nos contextos de trabalho, níveis progressivos de desenvolvimento e confrontos, num processo ainda não acabado, conduzindo-os para a autonomia, o desempenho livre e responsável da sua cidadania e actividade profissional.

Sim, porque o nosso desenvolvimento terá que ser dinâmico logo inacabado e a autonomia algo conquistado no dia-a-dia através num processo também ele dinâmico de certificação de competências e de capacidade de tomar decisões reflectidas e justificáveis.


Atenção ao futuro o “conceito de experiência assim, não será a simples passagem do tempo que a constroí…” pág. 14.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

DICOTOMIA ENTRE SABERES E COMPETÊNCIAS


LE BOTERF agrega a competência a um "SABER-MOBILIZAR"
"Possuir conhecimentos ou capacidades não significa ser competente. Podemos conhecer as técnicas ou regras de gestão contabilistica e não saber aplicá-las no momento oportuno. Podemos conhecer o direito comercial e redigir mal contratos.
Todos os dias, a experiência mostra que as pessoas estão na posse de conhecimentos ou de capacidades não sabem mobilizá-los de maneira pertinente e no momento oportuno, numa situação de trabalho. A Actualização daquilo que sabemos num contexto singular (marcado por relações de trabalho, uma cultura institucional, imponderáveis, imposições temporais, recursos...) é reveladora da "passagem" à competência. Esta realiza-se na acção" (Le Boterf, 1994, pág. 16)

AUTOFORMAÇÃO EM CONTEXTO PROFISSIONAL



COUCEIRO, Maria do Loreto Paiva


Maria do Loreto Paiva Couceiro tem o Doutoramento em Ciências de Educação (Dezembro de 2000). Especialidade "Educação e Desenvolvimento" na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL) e na Universidade François Rabelais, Tours (França). Investigadora da Unidade de Investigação Educação e Desenvolvimento (UIED), da FCT/UNL, sendo coordenadora do Sub-Programa "Autoformação e formação experiencial", desde 2001. Docente no Cursos de Mestrado "Educação e Desenvolvimento" da FCT e colaboradora do Mestrado"Formação de adultos" da FPCE da Universidade de Lisboa, sendo orientadora de dissertações de Mestrado e doutoramento. Foi co-responsável pela concepção, organização e execução do Mestrado "Formação e Desenvolvimento Sustentável", realizado no Brasil, no âmbito de uma Convenção entre a Universidade Nova de Lisboa e a Université François Rabelais de Tours, 2002- 2004. No âmbito da Profissionalização em Serviço foi Orientadora Pedagógica e responsável pelo Módulo "Desenvolvimento Curricular" na FCTUNL.

Texto publicado na Revista Formar, Abril de 1995, Nº 14 – págs. 6 a 15, Lisboa.

A autora dedica este texto à “Autoformação em Contexto Profissional”. Questiona o actual modelo de formação “clássica”, considerando-o limitador da própria formação, por fixar um tempo, um lugar e uma acção/actividade, não se coadunando com a própria evolução do trabalho, que apela a uma renovação contínua de conteúdos, o que deverá implicar uma renovação também contínua das modalidades de formação.

Alterar a forma de “fazer” formação está evidenciada no Livro Branco da Comissão Europeia sobre “Crescimento, Competitividade e Emprego”, em que apela “… a uma formação que seja catalizadora de uma sociedade em mutação.” (pág.7). E esta formação terá como objectivos “… o desenvolvimento das capacidades de evoluir e agir num ambiente complexo, de “aprender a aprender” ao longo de toda a vida, de reconstruir permanentemente conhecimentos e saberes.” (pág. 7). A isto se poderá chamar autoformação.

A autoformação é uma prática colectiva que interliga tudo aquilo que nos rodeia, levando em conta as nossas vivências e os saberes junto dos outros. Implica uma enorme responsabilidade na própria formação.

Autoformação e correntes que a definem quanto à sua finalidade (Galvani):
- A perspectiva técnico-pedagógica (auto instrução) – aquisição de novas técnicas e informações;
- A perspectiva sócio-pedagógica (auto educação) – aprendizagem de metodologias;
- A perspectiva bio-epistemológica (autoformação) – a acção reflexiva do Sujeito, em que “… é a pessoa, na sua globalidade, o objecto da formação.” (pág.9).
Independentemente da finalidade, na autoformação o lugar central é dado à pessoa adulta, desafiada a assumir-se como sujeito do seu processo formativo.

Citando Lerbet (1981) a autora afirma que a autoformação “… trata-se de um sistema vivo que estabelece trocas com o contexto onde se insere.” (pág.10).

Quanto às funções da autoformação, a autora cita Mezirow e Pineau apontando para três aspectos que se intercruzam:
- Instrumental (para agir no meio e nos outros);
- Diagonal (para comunicar);
- Auto-reflexão (para se compreender a si próprio).

O desenvolvimento da Autoformação carece de controlo e Carré evidencia três tipos que estão interrelacionados entre si:
- Pedagógico (métodos, recursos e circunstâncias da formação);
- Psicológico (motivações, necessidades e projectos pessoais);
- Sociopessoal (conscientização).

A personalidade e o percurso de vida de cada pessoa são aspectos fundamentais para a predisposição dos indivíduos se autoformarem.

Para que o processo de autoformação resulte, formando e formador têm que ter em linha de conta:
- Negociação e construção de um projecto;
- A experiência vivida por cada um;
- A reflexão para articular os dois processos anteriores.

Finalmente a autora dá-nos o exemplo de autoformação no seio de uma empresa onde afirma que “Promover uma mão de obra que pensa, reflecte, que é capaz de resolução de problemas e não mera executora, é apostar no potencial humano como recurso fundamental da própria qualidade e desenvolvimento da empresa.”págs. 13 e 14

Refere ainda que devem ser as próprias empresas a fomentar programas tendo em vista a dinamização da autoformação.

Com este texto entendo que a autora coloca em causa o modelo organizacional de muitas instituições no que diz respeito à formação, mas como estamos a falar de autoformação, não “poderemos sacudir a água do nosso capote”, diariamente somos confrontados com situações formativas, que só o são, se perante elas conseguirmos ter uma reflexão crítica, se interrogarmos, se investirmos.A reperspectivação é fundamental depois do acto reflexivo.

Numa fase em que tanto nos queixamos, (ainda que com alguma razão), que perdemos autonomia por decretos-lei, convém lembrar que o percurso evolutivo do reconhecimento social e da verdadeira autonomia prática dos Enfermeiros surgiu por decreto (REPE), mas só após os Enfermeiros a terem feito vingar na prática.

Foi a afirmação autónoma dos Enfermeiros em contextos laborais que nos levou a uma série de evoluções profissionais desde 1975 até 2000 (desenvolvimento impar no panorama sócio-laboral das profissões em Portugal). Como diria Paulo Freire, os enfermeiros afirmaram-se “nos espaços de acção-reflexão”.

Ainda recentemente, numa situação de jejum de um doente para realização de um exame, este solicitou um pouco de água. A resposta mais corrente é não. Contudo a equipa decidiu reflectir….(até porque 30 minutos antes do exame administramos água com líquido de constaste). Para reflectir foi fundamental a pessoa em causa, a sua situação, o serviço, o território da acção. Reunimos saberes, partilhamos experiências, indagamos outros elementos da equipa multidisciplinar e reperspectivamos. Mudámos a prática naquele caso concreto. E como de pequenas coisas se constroem grandes mudanças, os passos continuam a ser dados no sentido da autoformação permanente, assente na reflexão e na grande vontade de continuarmos a ser “flexíveis, capazes de resolver problemas, de decidir e de agir num ambiente complexo” pág. 15.

Enfim, sermos ENFERMEIROS.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

TEORIAS E MODELOS COM APLICAÇÃO EM EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE


RODRIGUES, Manuel; PEREIRA, Anabela; BARROSO, Teresa

Estes 3 autores são Enfermeiros, e este é um artigo do livro Educação para a Saúde – Formação Pedagógica de Educadores de Saúde, edição da Formasau de 1993.

Este é um texto que continua a abordagem da importância da EDUCAÇÂO PARA A SAÙDE (EPS), como implicação na mudança de estilos de vida. Contudo é um texto mais orientado para teorias e modelos de EPS.

Tentarei ser sintético resumindo o que os extraí do texto como sendo para nós o mais importante:

Teorias:
Teoria da Conscientização, Paulo Freire – Reflecte-se sobre algo em concreto, examinam-se as causas subjacentes, identificam-se implicações e desenha-se um plano de acção.
Teoria dos Estádios de Mudança, DI Clemente – Existe um período de pré contemplação, contemplação, preparação para agir, acção e manutenção.
Teoria da Acção Racional, Fishshbein – Comportamento, intenção, atitudes tudo condicionado por normas.
Teoria do Processamento da Informação do Consumidor – O utente perante determinada informação toma uma decisão racional.
Teoria da Aquisição, Rogers – conhecer, ser receptivo, agir, aplicação de nova conduta, adopção de nova conduta.

Modelos:
Modelo Informativo – Comunicacional – Assente no conhecimento do utente e na informação que lhe é transmitida.
Modelo Humanista – Além de incorporar o modelo anterior, incorpora uma componente bastante forte de valores.
Modelo Neo-Behaviorista – Tudo é assente na aprendizagem da pessoa.
Modelo Informativo – Assente em aulas, na transmissão de conhecimentos sendo unidireccional.
Modelo Persuasivo-Motivacional – Baseado em convencer, realçando crenças e valores e o papel dos reforços
Modelo Politico-Economico-Ecologico – Permite a interacção, as sinergias. È tido em conta o interesse de todos os agentes. A pedagogia é centrada na pessoa e nas suas experiências de vida.
Modelo das Crenças de Saúde – Parte das percepções individuais do que está certo ou errado.
Modelo PRECEDE – identificação do problema, análise das condutas subjacentes e variáveis associadas e intervenção.
Modelo PIDICE – Preparar, Identificar, Desenhar, Mudar, Avaliar

Os autores referem que apesar das variadas teorias e modelos não existem receitas “….não há nenhum modelo que se destaque pela sua supremacia ou certeza absoluta da sua eficácia…”pág. 111.

Na prática a EPS tem de ser bem planeada tendo em conta variados factores nomeadamente o público-alvo da mesma”autoridade do técnico” e “sobrancerismo” pág. 113, são alguns factores que conduzem ao fracasso da sessão de EPS.

Os autores, depois, debruçam-se sobre alguns aspectos técnicos a ter em conta no planeamento e apresentação de uma sessão de formação formal, ou se quisermos de uma EPS, esta é sem dúvida uma lacuna que muitos de nós temos.

Entendo que apesar de o objectivo desta disciplina neste pólo da ESEL “Formação em contextos de trabalho” ser o estimular da reflexão sobre práticas profissionais, também deveria ter entrado um pouco por aqui, pela forma como expomos. Como nos dirigimos a um público-alvo. É frequente ouvirmos os Enfermeiros dizerem que têm ”medo” de falar. Aspectos abordados neste texto são para mim quase um corolário lógico dum processo reflexivo evolutivo (comportamentos de adesão, síntese, proximidade, simulação).

E disto, nos dão conta, os autores na pág. 114 “ Em EPS a estratégia psicológica e pedagógica é determinante para a adesão dos sujeitos ao significado da mensagem. Todo o comportamento humano tem um significado, não existe rejeição gratuita nem motivação sem sentido. Esta complexa realidade que constitui a galáxia dos comportamentos humanos, no que concerne a estilos de vida saudáveis, implica da parte do educador de saúde, uma adequada preparação prévia, um rigoroso trabalho de desenvolvimento de habilidades, capacidades e competências pessoais e sociais.”

Mas acredito que hoje temos maior capacidade para procurar novos recursos tendo em vista a transformação e a mudança objectiva e concreta nas práticas que identificamos como rotineiras e menos correctas.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

SERÁ ?

"... hoje a maior parte dos desgraçados dos alunos, têm de aguentar professores, a quem não pediram coisa nenhuma..."
POFESSOR AGOSTONHO DA SILVA
(ver filmes em posts anteriores)

domingo, 6 de janeiro de 2008

EDUCAR PARA A SAÚDE NO SEX. XXI



RODRIGUES, Manuel; PEREIRA, Anabela; BARROSO, Teresa

Estes 3 autores são Enfermeiros, e este é um artigo do livro Educação para a Saúde – Formação Pedagógica de Educadores de Saúde, edição da Formasau de 1993.

Num prefácio do actual presidente do Conselho de Administração do Hospital da Universidade de Coimbra é-nos referida a vantagem da formação de Profissionais de Saúde para os ganhos em saúde, para os avanços tecnológicos e por sermos nós actores da nossa própria acção.

“Informação não é conhecimento e conhecimento sem integração num sistema de saberes não é educação” refere no prefácio pág. 7 o Prof. Fernando Regateiro. Só com formação adequada há mudança de atitudes e comportamentos.

Já no texto os autores começam por de uma forma diferente, definir saúde atribuindo-lhe uma conotação individualizada, sugerindo uma clara mudança de paradigma, chegando a afirmar que cada pessoa tem a sua noção de saúde “ A saúde de cada pessoa depende do seu projecto de vida, do seu sentido de felicidade e da sua forma específica de estar no mundo” pág. 11.

Logo, poder-se-á afirmar que o estado de saúde, qualidade de vida e quantidade de vida estão intimamente ligados às políticas de saúde seguidas - logo de correctas políticas de educação.

Então os autores dão o verdadeiro enfoque à EDUCAÇÂP PARA A SAÚDE (EPS), como um processo que envolve a comunidade na promoção da saúde e prevenção da doença.

A EPS implica uma mudança voluntária, onde o foco são as atitudes e os comportamentos de saúde.

Os autores alertam-nos para os riscos que a mensagem da EPS pode provocar, nem sempre benéficos, e causadores de efeitos múltiplos de consequências imprevisíveis. O que é certo é que ninguém muda de comportamentos por imposição. Existem geralmente 2 factores associados a mudança, a convicção e a noção de que algo é prejudicial.

“Os comportamentos de saúde podem ser vistos como resultado de interacção de factores ecológicos sociais e psicológicos e a sua influência na saúde”, “ este enquadramento exige da parte dos profissionais de saúde, visão de futuro e sentido projectivo, conciliando no decurso da sua acção os factores biológicos e os estilos de vida, mas também os factores relacionados com o ambiente físico, cultural e socioeconómico” pág. 25. Ora aqui está em todo o seu esplendor, o indivíduo, inserido na comunidade, e o Enfermeiro como o principal gestor das necessidades holísticas dos mesmos em saúde.

Os autores começam então a colocar o dedo na ferida quando afirmam que a saúde além de depender de aspectos biológicos, comportamentos e estilos de vida, ambiente e condições de vida depende também dos SISTEMAS DE SAÙDE (destacado meu).

Efectivamente, os autores enumeram uma série de programas e compromissos de saúde do estado Português em que os resultados têm vindo a piorar em vez de melhorarem. Nomeadamente nos grupos sócio económicos mais baixos. Ou seja, constatamos que somos um país cada vez com mais assimetrias, com mais precariedade de emprego, com mais desemprego, como menores salários. Ou seja as políticas sociais influenciam os resultados da EPS. Ainda para mais, e devido aos elevados ritmos laborais os pais também deixaram de ter, em alguns casos, o vital papel de educadores dos seus filhos.

Destaco em jeito de resumo a BRUTALIDADE ARREPIANTE desta frase com a qual me identifico “ a dieta e o tabaco são menos importantes para a saúde que o lugar em que se vive e como se ganha a vida” pág. 31. Será que os Homens e Mulheres que fazem leis já pensaram nisto?

Destaco ainda a declaração assinada pelo Estado Português, que ficou conhecida como declaração de Jakarta aqui transcrita pelos autores “as pessoas necessitam de ter paz, habitação, educação, Segurança Social, boas relações humanos, alimentação, salário e emprego, justiça social, igualdade de Direitos” pág. 31.. Estes são princípios consagrados na primeira constituição da Republica Portuguesa pós Abril de 1974, mas ainda hoje longe de alcançar. Eternizada numa música sempre actual de Sérgio Godinho.


Os autores citam-nos exemplos de EPS na área do Tabaco, Álcool, Drogas, Comportamentos Alimentares, Sexualidade e Toxicodependências.

Mais uma vez e numa clara alusão à importância da reflexão sobre o que somos e fazemos individual e colectivamente no dia-a-dia, os autores alertam que as grandes mudanças começam a partir de pequenos gestos do nosso dia .

Sobre o êxito da EPS, ela está, segundo os autores, relacionado com a multidisciplinaridade de agentes que se entrecruzam em todo este processo. Sendo, que a dispersão profissional pode trazer alguns prejuízos para o processo quando existem falhas de liderança.

Assim apontam OS ENFERMEIROS como os profissionais com o papel de maior RELEVO em todo o processo de EPS

Contudo educadores para a saúde somos todos: Profissionais de saúde, Professores, Pais, Familiares e até Pares….

Este texto acima de tudo despertou em mim, ou por outra, manteve acordado o “bichinho” da intervenção social, também vital para ganhos em saúde numa sociedade que acredito que possa ser melhor. E que efectivamente ataquemos de frente os grandes problema do país, a pobreza, as assimetrias (vidé discurso do Presidente da República no final do ano de 2007). Só depois da balança social, friso SOCIAL, não económica, estiver equilibrada poderemos com equidade promover saúde e prevenir doença.

Continuo a reflectir para intervir e educar de forma coerente e convicta (para os cépticos utópica) num o país onde a produtividade continua a estar à frente da qualidade….

sábado, 5 de janeiro de 2008

NEM PRECISA QUE SE PUXE O LUSTRO DE TÃO BRILHANTE SER...

"...Há pessoas que não conseguem mudar porque aprenderam bem de mais a fazer as coisas erradamente. Chama-se por vezes a este fenómeno a "formação para a incapacidade"..."
REDDIN, B. (1990)

PAULA ALVES (Colega e Companheira)


"...Cada um de nós deve habituar-se a olhar com atenção, do lado de fora, para cada situação, a descrever exactamente essa situação e o que se passa e a interrogar-se, a questionar-se sobre a razão do seu agir e do que resulta desse agir. Após isto repensa, perspectiva de maneira diferente, “vê com outros olhos”. Se isto for feito em equipa, em conjunto, no nosso local de trabalho, gera um ambiente formador. Gera um ambiente facilitador de partilha de ideias e de perspectivas diferentes. Conduz à resolução das questões, dúvidas, conflitos, problemas que verdadeiramente importam e que realmente nos preocupam e conduz a um maior, mais rico e diversificado leque de soluções. Conduz-nos ao raciocínio adaptado a cada situação e não apenas ao raciocínio standard/padrão...." 2007

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

LOUCOS DE LISBOA



Aos anos que ouço esta música e remete-me sempre para o imaginário de um café bem pequeno que existe em frente da nossa escola.

Ao procurar uma música para quebrar o gelo dos textos, extensos, que tenho modestamente vertido neste blog, achei esta e logo me lembrei de um episódio bem recente passado com um ser humano internado num Hospital Psiquiatrico de Lisboa às 20h30m quando dizia ao porteiro "mandaram-me ir embora", o respectivo profissional respondeu "quem?", a utente retorquiu "ouço vozes que me dizem isso", de novo o profissional secamente disse "vá mas é para a cama que é onde já devia estar". Pergunto-me, será que os profissionais das Instituições de Saúde (independentemente da sua função) não deverão ter formação adequada para o lugar que desempenham e digo bem LUGAR. Porque para a função pode ter mas dentro daquele território algo de diferente seria necessário, nem que o resultado fosse o mesmo....Humanidade, doente mental é pessoa
....

REFLECTIR SOBRE O VIVIDO


APRENDER COM A EXPERIÊNCIA...ESCREVER HOJE AQUILO QUE NA ALTURA GRAVEI


Gostaria de poder aqui reflectir sobre 2 situações que me trouxeram ensinamentos significativos:

1 - A situação do D. criança de 3 anos, idade do meu sobrinho na altura, que após 45 minutos de manobras de reanimação foi declarada morta às 4h30m. De imediato me apressei a retirar tudo o que de invasivo a criança tinha para enviar a para a morgue. O sentimento de impotência e de falência de tudo aquilo que somos era uma constante em mim. Eis que tiro o tubo endotraqueal e o D. de 3 anos começa a apresentar um ou dois movimentos respiratórios. De imediato tudo o de invasivo começa e mais 40 minutos de massacre perante uma criança morta continua, na esperança de devolver algo perdido à já muito tempo. Volta-se a confirmar o óbito. No final da noite a Enfª especialista deu-me uma “aula” sobre reflexos, sobre estímulos, sobre como agir numa situação destas. Enfim aprendi a não lidar com a ilusão de algo que todos queríamos que existisse mas que à muito já tinha acabado – a vida daquela criança que podia ser o meu sobrinho. Hoje sei que nunca se procede a determinadas manobras antes de um corpo morto arrefecer. Nomeadamente de uma criança. Já lá vão mais de 10 anos.


2 - Como nem tudo é "mau" poderei falar do M. jovem tetraplégico de 20 anos que um dia quando eu perguntava aos meus colegas o que queriam para o jantar, encomendado do restaurante do lado, e porque o tinha feito na unidade alto e bom som, como se ninguém ouvisse, o M. estalou os dentes, único gesto que conseguia para chamar a atenção. Aproximei-me e tapei-lhe a traqueotomia e ele disse “ para mim é Bacalhau com Natas”. A discussão na Equipa foi mais que muita. Uns pelo dinheiro, outros porque os doentes têm dieta própria, outra por uma possível intoxicação alimentar, etc, etc, etc….. O certo é que a equipa reflectiu, ponderou, avaliou, considerou e o M. nesse dia comeu Bacalhau com Natas ainda hoje tenho dúvidas se fizemos bem, mas REFLECTIMOS, mas não tenho dúvidas que o M. ficou feliz e nada de grave aconteceu, caso acontecesse cá estaria para responder pela felicidade de um jovem doente. E espero bem que por uma decisão que ainda que não unânime, foi maioritária numa equipa que ponderou, “discutiu” e decidiu. Também aqui, já lá vão mais de 10 anos

A RODA E O REGISTRO, UMA PARCERIA ENTRE PROFESSOR, ALUNOS E CONNHECIMENTO




WARSCHUER, Cecília (1993)

Cecília Warschuer é brasileira e doutorada, dá aulas na universidade de S. Paulo

Neste texto a autora afirma-se apaixonada pelo mundo e dedicada a educação. A roda e o registro, uma parceria entre professor, alunos e conhecimento é uma das suas obras mais conhecidas e traduzidas.

A autora começa por algo aparentemente simples quando refere que registrar é deixar marcas pág 61., mas essencialmente marcas que traduzem vida que traduzem experiências.

Da sua própria experiência a autora refere-nos dois tipos de registo um individual a que chama diário e outro colectivo. Valorizando o diário como a bengala que aproxima teoria e prática pedagógica.

Como Loreto nos dizia, esta autora também entende o registo como uma reconstrução que proporciona condições especiais para o acto de reflectir pág 61. A autora disseca ainda sobre a sua experiência de professora revelando que para ela um diário poderá ter várias vertentes, referindo o sujeito, a realidade, as necessidades, o relacionamento e às rotinas. Tal qual o poderíamos fazer na nossa profissão.

Destaco como curiosidade a diferença que a autora revela entre os seus diários quando começou a trabalhar e mais tarde. Na primeira situação muito factual na segunda mais reflexiva e pensativa.

Como outros autores nos foram referindo ao longo deste trajecto reflexivo também para a autora deste texto registar é “ a partir das vivências do papel , adquirir certa distância delas, necessária para o acto reflexivo” pág 62. Ou seja a importância de ver as coisas de fora, algo que já vou conseguindo fazer cada vez mais no meu dia a dia pessoal e profissional.

O registo segundo a autora, foge de uma lógica repetitiva e mecânica para ajudar a construir uma memória compreensiva.

Logo chegamos a conclusão que o diário estimula a memória compreensiva servindo de impulso a ligação entre teoria e prática. Reconheço que na Enfermagem os nossos registos de enfermagem nem sempre desempenham este papel.

Logo o diário tem uma continuidade e um caminho de futuro beneficiando formandos e formadores segundo a autora.

Construímos um futuro com base numa prática reflexiva onde dúvidas e incertezas estão presentes no sentido da criação.

A autora remete-nos para um diário simples e muito oralizado, continuando a referir a sua experiência. Julgo que deveríamos enveredar pelo mesmo. Sair dos serviços pegar numa caneta e a ainda que mal, e a pressa pudéssemos registar algo que contribuísse para o futuro e para a mudança.

Como em textos anteriores vimos, a autora refere a escrita como algo perigoso que nos coloca em confronto connosco, mas naturalmente nos promove o crescimento.

A autora termina o texto por nos dar um exemplo de como funcionava com os alunos e de certa forma como mudou o seu comportamento em crianças com base em jogos e reflexão. Daqui o nome de roda. Claro está roda de transmissão de conhecimentos.

Mais uma vez esta “Roda” aqui sugerida pela autora me leva para os momentos de reflexão no seio da equipa de enfermagem do meu serviço. Acções de formação, prestação de cuidados, passagem de turno….

O que me leva mais uma vez a questionar o tipo de registos que fazemos se são “primários”, meramente descritivos de situações ocorridas, ou se vão mais longe apontando caminhos orientadores e reflexões sobre o cuidar?

Ex 1: "O doente foi massajado e posicionado…… Dormiu por curtos períodos, por apresentar queixas álgicas…"

Ex 2: "O doente foi massajado e posicionado, devendo ser adoptado de futuro o decúbito lateral esquerdo de forma preferencial por o doente apresentar um melhor padrão respiratório….Doente dormiu por curtos períodos, podendo ser tentado de futuro que se faça aplicação de calor húmido nas zonas onde apresenta mais queixas álgicas, bem como massagem, para avaliar de um eventual melhor resultado sobre o sono…. "

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

FORMAÇÃO REFLEXIVA



ALARCÃO, Isabel


Isabel Alarcão, nascida a 9 de Março de 1940, em Coimbra, licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Mestre em Curriculum and Instruction que realizou na Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos da América, em 1974-75.
Na Universidade de Aveiro leccionou nos cursos de formação de professores de Línguas (1976). Mais tarde, rumou à Inglaterra para, na Universidade de Liverpool, realizar o seu doutoramento em Educação, grau que concluiu em 1981.
Tem desenvolvido intensa actividade pedagógica e científica em duas áreas que procurou interligar: didáctica e supervisão. Conhecem-se-lhe as posições e os vários escritos, comunicações e conferências que a tornaram uma referência como conceptualizadora do papel das didácticas específicas na formação de professores. Mas é também na área da Supervisão que o seu nome é conhecido no país e no estrangeiro. Em 1987 publicou, em colaboração com José Tavares, um livro pioneiro intitulado Supervisão da Prática Pedagógica. Uma Perspectiva de Desenvolvimento e Aprendizagem ( 2ª edição, revista e desenvolvida, em 2003).Introdutora, em Portugal, do pensamento de D. Schön sobre a formação dos profissionais reflexivos, transferiu a noção de professor reflexivo para a de escola reflexiva, tema que tem abordado nos últimos escritos.
Professora catedrática desde 1990, desempenhou cargos de gestão universitária de grande responsabilidade: Presidente da 1ª Comissão Coordenadora do CIFOP, Presidente do Conselho Científico da UA, Vice-Reitora e Reitora.
Integra, desde a sua criação (1993), a Unidade/Centro de Investigação Didáctica e Tecnologia Educativa na Formação de Formadores.


Este texto foi apresentado numa comunicação proferida pela autora na Escola Superior De Enfermagem de S. José de Cluny em 1998.

A autora leva-nos a reflectir sobre a formação assente num processo dinâmico que é a aprendizagem experiêncial.

Começa por referir algo que podemos achar como algo digno do Sr. Lapalice mas que é de uma profundidade com consequências complexas: O Enfermeiro é um profissional “alguém a quem a sociedade tem o direito de exigir competência e pedir responsabilidade” pág. 53, quanto a mim além de ser uma boa definição de profissão é também uma definição de maioridade profissional que visa profissionais responsáveis e só assim autónomos. Logo de seguida reflecte sobre o enfermeiro profissional competente, assente na dicotomia conhecimento /capacidade, ou seja “ capacidade global da pessoa manifestada na acção e na situação” pág. 54, logo o enfermeiro para além do seu conhecimento profissional terá que utilizar um conhecimento fruto da experiência derivado de situações concretas e actualizado a cada nova situação, ou seja em desenvolvimento permanente. Daqui sermos uma profissão em constante mudança e adaptação, só assim transformaremos.

Este é então o mote necessário para formação reflexiva, para a construção de uma pessoalidade e profissionalidade com base na “interacção entre a pessoa e a situação”, “ aí se intrepenetra percepção e intuição, sentimento e raciocínio, imaginação e memória” pág. 55. É no cruzamento destas vertentes que poderemos com base em cada situação reflectir e construir um conhecimento e uma aprendizagem cíclica. “ a experiência é transformada em conceitos que, por sua vez, servem de guias para novas experiências” pág. 56.
Como exemplo bem recente disto tiro a comunicação da morte de um doente aos seus familiares, ontem ocorrida comigo e que me levou a sair do serviço e a reflectir sobre a forma e o local como o fiz, esta experiência que já não vivenciava a mais de 8 anos deu-me sem dúvidas aportes para uma nova situação que venha a vivenciar. Ou seja reflecti sobre a experiência projectando desde já ensinamentos para novas situações.

Esta é a base daquilo que a autora chama aprendizagem experiencial, “ a experiência é na realidade uma experimentação” pág. 56 algo diferente da formação pelas experiências de vida onde a “experiência constitui pelo contrário o laço de união entre a pessoa e a cultura” pág. 56.

A reflexão sobre as experiências é sem dúvida importante desde que consigamos interpretar essa experiência e conceptualizar o seu significado.

Citando Dewey a autora refere os princípios validadores da experiência como aprendizagem pág. 57:

1. Principio da significação – fazer sentido
2. Principio da continuidade – continuo entre o que aconteceu e vai acontecer
3. Principio da organização – as experiências não podem ficar a deriva
4. Principio do desenvolvimento e da aprendizagem – gera a possibilidade de novas experiências
5. Principio da qualidade – positiva e motivadora
6. Principio da reflexão – multiplicidade de factores
7. Principio da interacção social – comunicação com os outros
8. Principio da educação – conduz a educação
9. Principio da formação holística –a globalidade da pessoa constrói-se das experiências


A autora apresenta ainda o que chama segundo Handal e Lauvás teoria prática “ um sistema integrado, em permanente evolução, de conhecimentos, experiências e valores próprios de cada um e por este considerados relevantes para a sua profissão” pág. 58.

Este conceito funde num processo dinâmico e mutável sustentado nas experiências duas noções habitualmente dicotomizadas teoria e prática, fundamentando que as profissões são exercidas a 3 níveis, o nível 1 o da acção, o nível 2 da reflexão sobre as experiências e o nível da reflexão ética e da decisão moral.

A autora termina enfatizando o papel dos grupos na formação reflexiva.

Lembrando ainda Paulo Freire sugere aos Enfermeiros, (assim quis eu entender) uma atitude crítica e questionadora.

AGOSTINHO DA SILVA - PEDAGOGIA, UNIVERSIDADE E TRABALHO



AGOSTINHO DA SILVA - INSTRUIR E EDUCAR

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Na tua leveza de pássaro branco

Hoje vejo-te vigilante
envolta em efervescências de éter
à volta dos doentes,
presos à fatalidade estática
das pernas engessadas
aflitivamente imóveis e penduradas
numa rigidez de cabos e roldanas.
Entre as camas alinhadas
percorres na tua leveza de pássaro branco
os corredores lisos e brilhantes
e avalias com precisão cirúrgica
o espaço ocupado
pela dor e pelo sofrimento
contendo os gritos
e os incontidos apelos
dos corpos rasgados
que não aceitam
aquele destino.
e já não te incomoda
o cheiro intenso do clorofórmio
nem aquela luz baça
da hora do silêncio
a iluminar penumbras.
Velas pela noite dentro
diligente e branca
e regressas à tua paz
onde deitas o sono solto e interrompido
até que a manhã chegue
com o teu cansaço.

Alexandre de Castro

Um amigo, um comunicador, um jornalista, um poeta, um Homem que “aproveitou” a largura de fronteiras editoriais deste blogue, que se quer de reflexão e de momentos belos como este, para dedicar este seu poema às enfermeiras. O meu sincero, fraterno e solidário abraço em nome delas, ou por outra em nosso nome. Obrigado Alexandre de Castro.Rui Santos

PARA REFLECTIR ... OU AGIR ?

"...Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão..."

Paulo Freire

AUTOTRANSFORMAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DAS PRÁTICAS PROFISSIONAIS DOS PROFESSORES


COUCEIRO, Maria do Loreto Paiva

Maria do Loreto Paiva Couceiro tem o Doutoramento em Ciências de Educação (Dezembro de 2000). Especialidade "Educação e Desenvolvimento" na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL) e na Universidade François Rabelais, Tours (França). Investigadora da Unidade de Investigação Educação e Desenvolvimento (UIED), da FCT/UNL, sendo coordenadora do Sub-Programa "Autoformação e formação experiencial", desde 2001. Docente no Cursos de Mestrado "Educação e Desenvolvimento" da FCT e colaboradora do Mestrado"Formação de adultos" da FPCE da Universidade de Lisboa, sendo orientadora de dissertações de Mestrado e doutoramento. Foi co-responsável pela concepção, organização e execução do Mestrado "Formação e Desenvolvimento Sustentável", realizado no Brasil, no âmbito de uma Convenção entre a Universidade Nova de Lisboa e a Université François Rabelais de Tours, 2002- 2004. No âmbito da Profissionalização em Serviço foi Orientadora Pedagógica e responsável pelo Módulo "Desenvolvimento Curricular" na FCTUNL.O artigo agora em análise "Autoformação e transformação das práticas profissionais dos professores", in Revista de Educação do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 1998, Vol VII, n.º 2.Outros Projectos que destaco Orientação conjuntamente com a Professora Marta Lima Basto (1ª Doutorada Enfermeira em Portugal) no Doutoramento de Maria Manuela Soveral com o tema - Escrita e Formação - O registo sobre o cuidar como mediador das transformação das práticas Profissionais


Neste texto a autora procura reflectir sobre a mudança e a transformação na dicotomia formação/exercício. Leva-nos assim por uma questão bastante actual e que a meu ver vem ao encontro do quotidiano dos Enfermeiros. “Como aprofundar e transformar as nossas práticas e o nosso quotidiano agir pedagógico”, pág 53., como resposta simples e imediata “passa por ir dando lugar à perspectiva que promove uma outra relação permanentemente interactiva, entre teoria e prática”Pág 53.

Ou seja estaremos perante um outro paradigma para a formação. Aqui a autora citando Mezirow, 1996 refere-nos 3 paradigmas. O paradigma Objectivista baseado no comportamento como adaptação directa das aprendizagens efectuadas, Um segundo paradigma baseado no homem numa concepção mais vasta levando em linha de conta experiências e os próprios contextos em que as situações surgem e um terceiro paradigma quanto a mim mais interessante e mais promotor da mudança e transformação, o paradigma emancipatório “a aprendizagem ocorre na medida em se apreendem, se fundamentam e se transformam perspectivas e esquemas de significação.” Pág 54.

Este terceiro paradigma está na base da teoria da transformação onde o diálogo é fundamental tendo em conta “intersubjectividade, solidariedade e o processo de reflexão crítica” pág 55 também aqui a autora me fez reflectir sobre alguns diálogos no serviço que mais do que tentarem ser momentos de chegada a uma plataforma de consenso que vise a mudança são momentos para avaliar quem ganha e quem perde. Quem tem ou não tem razão e que na prática nos leva a que cada um continue a fazer o mesmo da mesma forma.

Todo este processo tem que levar em linha de conta, como nos refere a autora a reflexão sobre as práticas, a experiências das pessoas e no nosso caso dos Enfermeiros será fundamental para a construção do conhecimento tal qual estaremos a fazer ao longo deste ano de CCFE.

Para tal reflectir sobre práticas é antes de mais um processo com fases de onde destaco a observação “…não é conhecer…trata-se antes de reconhecer”, pág 56, a análise “desconstruir com vista a reconstruir” “pensar de novo “ pag 56 e reperpectivação. Depois de observar e analisar perspectivar como faremos como transformamos.

A autora toca ainda num aspecto fundamental em todo este processo de reflexão para a mudança e que nós enfermeiros o utilizamos diariamente, com significativos, ainda que lentos progressos a meu ver – a escrita. Esta “auxilia a observação e a reflexão porque a partir das vivências expostas no papel, é possível adquirir certa distância delas, necessária ao acto reflexivo”pág 57. A autora refere ainda a escrita das situações experiênciadas como útil para o confronto e debate de pontos de vista, sendo um processo exigente que exige esforço, mobiliza energias e tempo e é geradora de desassossego útil para o confronto connosco próprios. Julgo que acima de tudo comecei hoje aqui a perceber melhor o que se pretende com o diário de aprendizagem que vai servir de avaliação a esta cadeira.

Por fim e como corolário de toda esta perspectiva a autora dá-nos o exemplo de um trabalho realizado com professores com vista a reflexão das suas práticas profissionais, onde estes tinham que registar as suas práticas profissionais. Estas seriam analisadas a luz de um triângulo pedagógico que tinham com vértices professor, aluno e saber e as suas inter relações. Algo que no nosso caso poderíamos e deveríamos analisar com um triângulo verticalizado em enfermeiro, utente, cuidado de enfermagem….e as suas inter-relações dimensão do cuidar, do ensino/saber e da aprendizagem/conhecimentos apreendidos.

Só com um processo assente na vivência e na reflexão das práticas auto transformamos e como acaba a autora “ o que fazemos contribui para o que somos e o que somos revela-se no que fazemos “ pág . 60

Neste texto destaco mesmo a importância da escrita para a consciencialização e mudança das práticas. Ao ler este texto decidi criar este blog para que pudéssemos despertar também aqui, nas novas tecnologias (net) para a nossa capacidade de reflectir sobre aquilo que nos inquieta perdendo alguns minutos a escrevê-lo (mesmo que sob anonimato, ainda que escusado). Se o conseguirmos fazer no mundo virtual, também o podemos e devemos fazer no nosso dia-a-dia.


Uma das coisas que no meu percurso profissional mais me indignou foi perguntarem-me se em dia de GREVE se escreviam registos de Enfermagem… Saberemos para que eles servem?

domingo, 30 de dezembro de 2007

EDUCAÇÃO DE ADULTOS: Um Campo e uma Problemática

CANÁRIO, Rui

Tem 59 anos é de Lisboa, Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1974), Doutorado em Ciências da Educação pela Universidade de Bordéus II (1987), Domínio de investigação actual: A educação e o local. Investigador responsável do projecto ESTER (Escolas e territórios), financiado pela Fundação Ciência e Tecnologia. Domínios de ensino: Formação de adultos e sociologia da educação. Responsável pelo curso de mestrado na área de especialização de Formação de Adultos. Actividades de ensino, por convite, nas seguintes universidades: Universidade Nova de Lisboa, Universidade Aberta, Universidade do Porto, Universidade de Évora, Universidade dos Açores, Universidade do Estado de S. Paulo (Brasil), Universidades de Estrasburgo e de Rouen (França).

Neste texto o autor enfatiza o papel da EXPERIÊNCIA no papel Formativo. “…a experiencia nos processos de aprendizagem supõe que esta é encarada como um processo interno ao sujeito e que corresponde, ao longo da sua vida, ao processo da sua auto-construção como pessoa” pág. 109.

No entanto para que este enfoque seja possível de existir terão de existir 2 premissas fundamentais:

1 – Criação de um sentido citando Barth “aprender significa atribuir um sentido a uma realidade complexa e essa construção de sentido é feita a partir da história “cognitiva, afectiva e social de cada sujeito” pág. 110.

2 – Mobilização do sujeito para a autoproduzir a sua vida, o sujeito é um recurso de si próprio.
Direi que sendo o Curso de Complemento de Formação um momento privilegiado de reflexão e análise de práticas profissionais e logo um momento formativo de adultos, por excelência, deveria ser realizado quando cada sujeito incorpora-se cabalmente estas 2 premissas.

É partindo desta ideia chave que o autor nos fala da ruptura entre um modelo decadente de formação de adultos modelo “da aplicação da teoria na pratica”, para o modelo agora aqui preconizado na formação de adultos o modelo “dos saberes adquiridos por via experiencial” pág. 111.

Este modelo fica sintetizado de uma forma coerente e dinâmica na pág. 112 “ A prática do reconhecimento dos adquiridos experienciais, tem como fundamento não apenas, nem sobretudo, a comulatividade das experiências vividas, mas a capacidade do sujeito para as tirar e reelaborar, integrando-as como saberes susceptíveis de serem transferidos para outras situações, integrando-as na unidade global que representa o processo de autoconstrução da pessoa” pág.112

É neste sentido que o autor critica de forma prepositiva o actual, e bem nosso conhecido, modelo de formação contínua, assente em questionários sobre necessidades formativas (lacunas), potenciador de resultados incertos e que descontextualiza os indivíduos da “sua inserção social em situações concretas de trabalho e vida social” pág. 114. Digo que é prepositivo porque sugere um modelo “de uma oferta formativa, aparece, então, como uma construção social que implica um confronto de pontos de vista entre o pólo dos formadores, o pólos dos formandos e o pólo dos que encomendam a formação. É este confronto que conduz a problematizar situações e a produzir objectivos de formação, correspondendo a uma prática social, desejavelmente contextualizada e capaz de integrar a experiência e os adquiridos dos destinatários da oferta formativa.” Págs 115 e 116.

Com este texto somos remetidos para algo verdadeiramente compreensível, o potenciar da experiência como momento formativo. Mas se fossemos responsáveis da formação no nosso serviço como fugiríamos ao modelo dos inquéritos sobre necessidades para passarmos ao planeamento da formação tendo por base a contextualização e integração da experiência e dos adquiridos?

FORMAÇÃO E MUDANÇA NO CAMPO DA SAÚDE

CANÁRIO, Rui

Tem 59 anos é de Lisboa, Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1974), Doutorado em Ciências da Educação pela Universidade de Bordéus II (1987), Domínio de investigação actual: A educação e o local. Investigador responsável do projecto ESTER (Escolas e territórios), financiado pela Fundação Ciência e Tecnologia. Domínios de ensino: Formação de adultos e sociologia da educação. Responsável pelo curso de mestrado na área de especialização de Formação de Adultos. Actividades de ensino, por convite, nas seguintes universidades: Universidade Nova de Lisboa, Universidade Aberta, Universidade do Porto, Universidade de Évora, Universidade dos Açores, Universidade do Estado de S. Paulo (Brasil), Universidades de Estrasburgo e de Rouen (França).

No texto agora em analise o autor leva-nos a reflectir sobre a formação em contexto laboral nomeadamente no seio das organizações de saúde.
Destaco que esta reflexão foi apresentada em Janeiro de 1996 na Escola Superior de Enfermagem Bissaya Barreto (ano e escola da minha formatura), mas à qual não assisti.
Numa abordagem histórica da formação nas instituições de saúde o autor destaca o papel desempenhado pelos departamentos de educação permanente dos Hospitais.

Contudo todo o texto é orientado para uma NOVA PERSPECTIVA DA FORMAÇÂO. Uma formação assente nas práticas, na relação, na qualidade e numa territorialidade perfeitamente circunscrita ao espaço de acção dos cuidados.

Somos alertados para deixar um modelo de formação descontextualizado, que vise só a produtividade e quantidade. Neste sentido refere “a situação de trabalho aparece, neste caso, como uma situação social (que comporta uma dimensão técnica) e o enfermeiro como um profissional da relação em que as vertentes pessoal e profissional e as dimensões social e técnicas não são dissociareis” pág. 130.

É frisado na pág. 131 o perigo existente na dicotomia entre os saberes, “o saber das faculdades e o saber dos Hospitais”. Algo indissociável.

O autor dá-nos um exemplo prático de um programa que funcionando em rede e assente no conhecimento das realidades práticas, assente na multidisciplinaridade cresceu e se implantou na população. O exemplo de “Fareginhas” pág. 133.

Resume este projecto dizendo “…a valorização dos conhecimentos e experiências dos participantes e na aceitação de que o desenvolvimento do projecto corresponde a processo conjunto de aprendizagem que engloba os elementos da comunidade local e os intervenientes exteriores” pág 134.

O autor percorre ainda mais alguns conceitos baseados em estudos com profissionais de saúde, dos quais destaco:

-A importância de reequacionar à formação inicial para ela não ser considerada, como é em muitos estudos, ineficaz. O autor cita Boterf pág. 139 “…as competências são emergentes dos contextos de acção profissional….”

-A importância de dar outra dimensão organizacional às instituições de saúde, menos tarefeiras e mais geradoras de comportamentos e acções colectivas.

- A importância da valorização da autoformação no desenvolvimento profissional dos trabalhadores. O que sei ser hoje uma preocupação das estruturas sindicais da profissão no que concerne a revisão da Carreira de Enfermagem.

Rui Canário fez-me reflectir mais uma vez sobre estratégias formativas que visem a mudança. Identifiquei-me em parte com a noção de ineficácia da formação inicial. Quantas vezes nos disseram “isto não é assim que se faz nos serviços”, constatei também eu que o mundo laboral é muito diferente dos conceitos e conteúdos transmitidos ao longo do trajecto formativo inicial. Como já disse no texto anterior julgo que este problema se vai esbatendo com a aproximação das escolas ao mundo laboral e do conceito de enfermeiro orientador de alunos em articulação com os objectivos da entidade formadora. Poderíamos ir mais longe se mais enfermeiros orientadores de alunos em estágio contribuíssem com os seus saberes durante o período mais teórico da formação inicial. Sendo esta teoria “partilhada” mais vezes nos “territórios da acção”.

No campo laboral destaco que o papel dos DEP´s e CF das Instituições, começam a não acompanhar a evolução, fomentando acções de formação muito generalistas que pouco aproveitam a realidade e os exemplos contextualizados da prática dos cuidados. O papel das políticas de saúde e organização das instituições também não é condicente com os objectivos formativos. Integrações cada vez mais curtas.

Para mim a grande esperança centra-se na formação realizada no “teatro das operações” “caso a caso”. A cada gesto, em cada momento do cuidar temos de ser seres reflexivos e geradores de momentos formativos em nós e nos outros. Será alguma vergonha reflectir e formar sobre o melhor posicionamento, junto do utente em causa e com um conjunto mais ou menos vasto de colegas? Para mim este é o NOSSO CAMINHO.

A FORMAÇÃO TEM DE PASSAR POR AQUI

NÓVOA, António

1986 - Doutoramento em Ciências da Educação na Universidade de Genebra.1994 - Agregação em Ciências da Educação na Universidade de Lisboa.- Professor Auxiliar (1986-1990), Professor Associado (1991-1995) e Professor Catedrático (desde 1996) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.- Assistente ou Professor Convidado, por períodos longos, das Universidades de Genebra (1982/1983), de Wisconsin-Madison (1993/1994) e de Paris V (1995).- Professor Convidado, por períodos curtos, das Universidades de Montreal, Strasbourg, Barcelona, Mons, A Coruña, Madrid, São Paulo, Federal do Rio de Janeiro, Federal de Mato Grosso do Sul, PUC-São Paulo, PUC-Rio de Janeiro,...- Presidente da Associação Internacional de História da Educação (ISCHE).- Presidente do Conselho Científico do Instituto de Inovação Educacional (1990-1993).- Coordenador e/ou vogal de vários painéis de avaliação científica, em Portugal e no estrangeiro (União Europeia, INRP, etc.), particularmente como responsável da área de Ciências da Educação na Comissão de especialidade das Ciências Sociais da JNICT (1995-1997).- Membro do Conselho Científico de Acompanhamento de Unidades de Investigação da Universidade do Minho (CEEP) e da Universidade do Porto (CESE), desde 1998.- Membro da Comissão Científica do Senado da Universidade de Lisboa, desde 1998.- Consultor para a Educação do Presidente da República (1996-1999).- Orientador (ou co-orientador) de 12 teses de doutoramentos e de cerca de 30 teses de mestrados, já concluídas.- Membro de mais de cem júris de provas de agregação, de doutoramento e de mestrado, em Universidades portuguesas e estrangeiras (Paris III, Paris V, Madrid, La Coruña, Palma, Genève, Strasbourg, São Paulo, etc.).- Áreas de especialização: História da Educação e Educação Comparada.

Neste texto o autor apresenta-nos uma perspectiva histórica evolutiva de alguns conceitos sobre educação de crianças e modelos formativos de adultos.
Desde os finais do Sec XVIII toda a Educação das sociedades ocidentais está ancorada no Modelo Escolar, ou seja, ao longo dos séculos as práticas formativas têm como pressuposto que “educar é preparar no presente para agir no futuro. O tempo de formação…surge, portanto, dissociado do tempo da acção” pág. 109.
O modelo escolar concebe uma dissociação entre estes dois momentos o tempo da aprendizagem com o tempo da sua aplicação, levantando uma questão quanto a mim interessante ainda nos dias de hoje “em que medida (e de que modo) as atitudes, as capacidades e os conhecimentos adquiridos durante a formação podem ser “mobilizados” numa situação real de trabalho?” pág. 110.

Julgo que será difícil formar um bom surfista na Serra da Estrela, ou um bom enfermeiro em contextos eminentemente teóricos. Naturalmente que com 12 anos de profissão sinto evidentes melhorias da aproximação dos alunos de Enfermagem aos contextos laborais, bem como da orientação conjunta entre docentes e enfermeiros dos citados alunos. Num claro caminho de combate a este modelo escolar, julgo que a Enfermagem em Portugal continua a trilhar um percurso que conduzirá a certificação de competências profissionais, onde saber e acção vão andar de mãos dadas. Só assim seremos sujeitos activos e interventivos e afirmativamente autónomos. “…. Não sendo abusivo afirmar que grande parte dos educadores actuais considera ainda que o seu trabalho consiste em….moldar cera mole”pág. 110. Julgo que nenhum de nós gosta de ser considerado “cera” e ainda por cima “mole”.

No entanto o autor revela-nos que no século XX existiram 3 movimentos de contestação ao paradigma Escolar:

1- Movimento Educação Nova – Anos 20
Realça o aprender fazendo, e o aprender a aprender. Estimula a criatividade e liga a escola à vida “incentivo à participação activa dos formandos no seu próprio processo de aprendizagem”pág. 111. Apesar de toda esta aparente, e direi eu, importante revolução existem para o autor 2 pilares que este movimento não decapitou do modelo escolar “a existência de um tempo para aprender e de um tempo para fazer, o encerramento das práticas educativas em espaços próprios” pág. 111.

2- Educação Permanente – Anos 70
Concebe o Homem como um ser inacabado em constante evolução visando a construção do saber ser. Este movimento rompe só em parte com o modelo escolar “pelo menos no plano dos princípios”, “Aprender é uma função da vida”, ”Qualquer pessoa, independentemente da sua idade, tem o direito de decidir o que aprender, como quando e onde” pág. 113, estes registos transportam-nos para uma lógica não diferenciadora da do modelo escolar no que concerne ao conceito escolástico de aprendizagem alargando-o sim a outros locais (esta a grande diferença).
O autor acentua a sua problematização desta questão dirigindo-se a nós próprios, profissionais de saúde. “Que potencialidades formadoras se podem desencadear no seio de um espaço hospitalar? Ou, como é que uma consulta se pode transformar num tempo de aprendizagem e de formação?” pág. 114

3- Histórias de vida ou método (auto)biográfico
Visa a construção de uma nova epistemologia da formação de adultos baseada nos seus próprios conhecimentos e experiências. Ainda se consubstancia como desafio

Da leitura deste texto retiro as profundas marcas do modelo escolar na sociedade actual, saberemos nós por exemplo aproveitar uma passagem de turno como espaço de reflexão/formação/acção? A minha opinião é que na maior parte das vezes não. Se a pressa, ou cansaço pode ser um argumento para que tal não possa ser feito neste espaço. Então qual ou quais as estratégias para no nosso dia-a-dia de prestadores de cuidados de Enfermagem sermos também seres eminentemente formativos?